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<detalhes do livro>
Cão come Cão
Edward Bunker
Cão come cão, lançado nos Estados Unidos no final dos anos 80, é o quarto romance do autor. Traz a história de Troy Augustus Cameron, recém-saído de San Quentin, e de seus comparsas, Charles "Diesel" Carson e Mad Dog McCain, também ex-presidiários. De volta às ruas de Los Angeles e assombrados pela lei "three-strikes-and-out", segundo a qual após três delitos de qualquer natureza o indivíduo é mandado para a prisão perpétua, eles se unem para aplicar golpes em traficantes e pequenos gângsteres.
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O norte-americano Edward Bunker, nascido em Los Angeles em 1933, é um desvio singular nas estatísticas criminais. Tendo passado cerca de vinte anos de sua vida atrás das grades das piores prisões de seu país, era no mínimo improvável que ele se tornasse um escritor tão elegante, talentoso e aclamado pela crítica e por leitores de diversas partes do mundo, alguns bem conhecidos como Quentin Tarantino, James Ellroy, Jeff Bridges e William Styron. Até o momento, os brasileiros poderiam reconhecê-lo como o Mr. Blue de Cães de Aluguel. De agora em diante, poderão desfrutar do poder de sua narrativa.

Cão come cão, lançado nos Estados Unidos no final dos anos 90, é o quarto romance do autor. Traz a história de Troy Augustus Cameron, recém-saído de San Quentin, e de seus comparsas, Charles "Diesel" Carson e Mad Dog McCain, também ex-presidiários. De volta às ruas de Los Angeles e assombrados pela lei "three-strikes-and-out", segundo a qual após três delitos de qualquer natureza o indivíduo é mandado para a prisão perpétua, eles se unem para aplicar golpes em traficantes e pequenos gângsteres.

A ação é de tirar o fôlego e, por si só, faz com que o leitor fique obcecado pelo desfecho da história. Mas a trama narrativa de Cão come cão também se estrutura magnificamente na concepção das personagens, nas reflexões do protagonista sobre o sistema penitenciário e a sociedade americana, nas estratégias para o crime e na ética subjacente às relações entre os criminosos.

"Haverá, então, alguma região da experiência que poderia desencorajar a intrusão de um autor pouco familiarizado com sua realidade? Novamente estava prestes a dizer não, mas de fato acredito que tal lugar exista, e que ele seja o moderno submundo americano, paisagem povoada por criminosos embrutecidos. Essa é uma província de nossa sociedade que está tão remota dos acontecimentos da vida do leitor de classe média, um lugar tão violento e corrompido, povoado por seres humanos tão grotesca e imprevisivelmente diferentes de você e de mim, que seus contornos aterradores e o comportamento dos seus habitantes só poderiam ser retratados por um escritor que já esteve lá. Edward Bunker esteve."

Nota do Designer
Um policial na linha dos clássicos da ficção no gênero, apresentado pela primeira vez no Brasil. Este é o número 1 de uma série e sua capa é a base para outras capas. A solução "alltype" foi a única a permitir a continuidade da coleção, pois o estoque de fotografias não seria suficiente para ilustrar todos os volumes. Uma fonte pesada em corpo grande explorou a simetria do título, que se localiza quase na dobra da lombada e é vazado no branco para o máximo de contraste e simplicidade. O nome do autor vai como uma assinatura, em cor combinada. O chapado preto deu o contraste necessário e o fundo adequado para uma esquemática mancha de sangue. O aspecto comercial, popular, foi complementado pela frase de um leitor famoso, avalizando o livro. A lombada inicia a uniformização da coleção com pingos de sangue que farão certo movimento no conjunto e foi criada em arquivo à parte, em conjunto com as próximas edições, para colocação posterior nas artes finais. A diagramação descentralizada da lombada é a opção a um título maior, que ocupasse mais área, criando uma personalidade. Na contracapa, uma pequena foto do autor em Paris e um trecho do livro como aperitivo. Na parte interna, privilegiamos o corpo generoso do texto, com uma entrelinha não muito aberta para não comprometer o custo do livro. Os tipos Sabon foram os escolhidos por seu desenho clássico e amigável. Um tipo reto faz o contraponto com essa tipologia nos capítulos, chamando a atenção para a numeração. Títulos correntes complementam a página, sem preocupação com o nome do capítulo.
Nota do Tradutor
Munição Quente

- Hot load? - o velho senhor de bigodes brancos me olhava entre desconfiado e perplexo.

Logo, mais dois homens se juntaram a nós. O primeiro, austero e robusto, vestindo um terno preto, parecia recém-saído de uma sessão da corte; o segundo era o dono da loja, rapaz de não mais de trinta anos, vestindo simplesmente camiseta e jeans, quase um contraponto aos outros dois. Na parede atrás deles, uma pequeno coleção de pistolas, facas e rifles de precisão parecia me olhar de cenho franzido, ameaçador.

- Hot load é mesmo "munição quente" - disse o do terno preto (um promotor público aficcionado por armas, como eu ficaria sabendo em seguida). - Desculpe perguntar, mas por que você está interessado nisso?

Expliquei-lhes que era tradutor e estava trabalhando em um livro escrito por Edward Bunker, um ex-presidiário americano que abandonou o crime depois de se tornar romancista. Queria conhecer alguns termos ligados a armas e munições para evitar a armadilha de uma tradução literal, daí a visita a um armeiro (a outra opção, talvez mais proveitosa, seria conversar com criminosos, mas não conhecia ninguém nessa área a quem pudesse recorrer sem riscos). Na hora e meia que se seguiu, eu, cujo contato com revólveres e pistolas tinha ficado restrito às brincadeiras de polícia e bandido na infância, vi surgir da boca daqueles senhores honoráveis um arsenal de balas, berros e carabinas - e como cada um deles pode ser usado para matar pessoas de diferentes maneiras -, tudo descrito com a empolgação de meninos falando sobre seus brinquedos favoritos.

Traduzir Edward Bunker, porém, exige bem mais que uma mera visita a lojas de armas. Não se trata, afinal, de um simples autor de novelas policiais - a não ser, como Bunker costuma frisar em suas entrevistas, que consideremos, por exemplo, Dostoiévsky um autor policial por ter escrito Crime e Castigo. No prefácio que escreveu para Cão Come Cão, William Styron - bastante lembrado entre nós por seu romance A Escolha de Sofia, adaptado para o cinema - define Bunker como um raro exemplo de escritor que esteve em um universo completamente alheio à experiência de vida de qualquer outro autor, o do submundo dos presídios e da criminalidade, do qual emergiu para nos apresentar um testemunho ao mesmo tempo cruel, violento e instigante. Traduzi-lo é, de certa forma, ser compelido a mergulhar nesse universo. Afinal, seus romances dão voz e sentimentos a personagens a quem usualmente se nega a própria condição humana, responsáveis que são pelos nossos maiores medos. Ladrões, assassinos, traficantes, proxenetas e psicopatas nos são apresentados vestindo todas as peles da natureza humana, mas sem se despirem da ferocidade dos que vivem submetidos à lei do mais forte. Esse é, aliás, um dos principais motivos de interesse na obra desse autor, ator e roteirista de cinema de 71 anos: a possibilidade de penetrar o véu de alteridade com que geralmente cobrimos esses subprodutos perversos da nossa civilização, para enxergarmos seres feitos da mesma matéria que nós, embora vivam de acordo com suas próprias leis e códigos de conduta e sejam capazes, nas situações extremas em que vivem, de atos mais ferozes do que poderíamos sequer conceber.

Há ainda mais uma importante razão para ler Edward Bunker. Encerrado desde os 11 anos de idade em uma escola correcional para menores, passou a maior parte de de sua existência até os 40 anos em diferentes instituições judiciárias, sendo solto apenas para retornar algum tempo depois, em um ciclo que só se encerraria após a aceitação de seu primeiro romance, Nem os Mais Ferozes, para publicação. Ao longo de todo esse período, aprendeu a sobreviver entre os criminosos - mesmo na maior das adversidades, a vida sempre encontra seus caminhos, disse ele - e conheceu intimamente a ética e a linguagem dos presídios, o que lhe tornou possível reproduzir, em sua obra, a fala crua dos ladrões, assassinos e marginais. Durante todo esse tempo, jamais deixou de ser um leitor voraz. Passava as longas horas do cárcere consumindo livros de autores como Jack London, William Faulkner e Dostoiévsky, autor que menciona com freqüência. A combinação desses dois elementos dá a Bunker um estilo incomum, em que a língua marginal de seus personagens se alterna com o estilo elegante e culto com que constrói sua narrativa, chegando em alguns momentos a beirar a erudição, mas sem jamais perder o ritmo intenso e instigante que fez dele um autor cultuado pelo mundo.
Esse é, certamente, o maior desafio enfrentado ao se traduzir um romance de Edward Bunker: reproduzir sua diversidade de vozes e tons e manter o equilíbrio tenso entre o chulo e o refinado, o violento e o humano, a ação envolvente e a crítica social, que caracterizam seu estilo. Se houver conseguido ao menos me aproximar do cumprimento desse desafio, terei, talvez, retribuído o privilégio de ser um dos responsávei por apresentar Mr. Edward "Blue" Bunker aos leitores brasileiros.

Francisco R. S. Innocêncio

Ficha técnica
Título: Cão come Cão
Autor: Edward Bunker
Gênero: Romance
Editora:
Barracuda
Número de páginas: 288
Formato: 14x21 cm
Preço: R$ 39.00
ISBN: 85-98490-08-3

16 comentários
23/10/2009 @ 20:31 16
  http://my-addr.com/
ler todo o blog, muito bom
13/01/2008 @ 14:56 15
esse livro simplesmente um luxo ....parabens,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,
28/10/2006 @ 10:25 14
Bunker nos faz entrar no submundo do crime, mas com toques de ternura e reflexões sobre a vida marginal a qual levava.
Cão come cão também mostra sua dedicaçao pela leitura no periodo de carcere e mostrando ao mundo sua dor contida nesses dezoito anos.
Os personagens tem vida, posso ver Mad Dog, Troy e Diesel, adando pelas ruas sujas e decadentes com os instintos alerta!

Parabens Editora Barracuda!
03/10/2006 @ 13:07 13
Pois é, Carlos, como tradutor você certamente sabe que traduzir é fazer escolhas. A necessidade de escolher, de assumir um jogo de perdas e ganhos, em que se renuncia ao uso de uma palavra polissêmica aqui, para recuperar a multiplicidade de sentidos mais adiante, é inescapável. Na minha tradução de Cão Come Cão, a escolha que fiz, sempre que me foi possível, foi dar “uma voz brasileira”, ao Bunker, como definiu, à época, Isabella Marcatti, então editora da Barracuda e uma das responsáveis pela preparação do texto. Isso me levou a, sempre que possível, adotar expressões e tons que remetem à cultura brasileira, em vez de uma obediência cega ao contexto cultural da língua de partida. Um exemplo, a expressão “kicking asses and taking names”, que aparece duas vezes no romance, e que é tão representativa do universo dos personagens criminosos e truculentos de Bunker. Preferi adotar o nosso igualmente típico e truculento “matar a cobra e mostrar o pau” a uma tradução literal, que provavelmente não teria sido tão significativa. Como dizem Sapir & Whorf, cada língua possui uma visão específica do mundo.
Por outro lado, você reprova também eventuais traduções literais de palavras. Há casos (e é a eles que o Freddy se refere no seu comentário) em que não é possível evitar a literalidade. A perda de significado, nesses casos, é inevitável, posto que toda língua tem polissemias que as outras não têm, e nisso a língua inglesa é fértil. Mas como afirmei acima, o trabalho de tradução é sempre um jogo de perdas e ganhos.
Por fim, você afirma que há um certo momento em que o tradutor se confunde com os tempos verbais, adotando a primeira pessoa. Não me parece que tenha havido confusão, pelo menos não de minha parte. Como você leu o texto original, sabe que uma das marcas do estilo de Edward Bunker é o uso de um discurso indireto livre em que há uma forte identificação entre narrador e personagem, a ponto de, por vezes, o narrador “ler” os pensamentos do personagem e expressá-lo em primeira pessoa. Isso ocorre não só em Cão Come Cão, mas também em outros romances de Bunker, como Little Boy Blue e Animal Factory. No caso do Cão Come Cão, é possível apontar trechos em que a adoção da primeira pessoa é apenas aparente, como nas páginas 276-277, quando Troy espera a passagem de um carro que possa tomar como meio de fuga (“Um caminhão com trabalhadores rurais mexicanos parou; então prosseguiu rampa acima. Merda, eles iam trabalhar de madrugada.”). Aqui não há ainda a adoção do tempo verbal em primeira pessoa, mas o narrador incorpora o pensamento de Troy, sua indignação pelo fato de os trabalhadores mexicanos estarem se dirigindo ao trabalho a uma hora daquelas. Embora não haja o tempo verbal para assinalar a primeira pessoa, ela é assumida pelo narrador nesse momento. Outro caso é o da página 111: “...os interesses verdadeiros eram mais primais: se o conflito racial explodir novamente, eu tenho que andar entre aqueles branquelos no passadiço para chegar à minha cela.” (cf. páginas 86-87 da edição original da St. Martin Press, 1996). Não creio que haja dúvidas aqui: o narrador cita o pensamento corrente de qualquer prisioneiro durante o conflito racial na prisão.
Casos como estes estão presentes em toda a prosa de Edward Bunker, que é refinada e intensa. São eles que diferenciam a obra deste ex-prisioneiro que se livrou das grades após tornar-se escritor e roteirista do mero romance de crime. E são tais recursos que fazem com que sua prosa seja tão poderosa, cumprindo com maestria o que se propõe: criar entre leitor e personagem uma empatia capaz de fazer com que aquele entenda a mente criminosa como o que de fato é: a mente de uma pessoa como ele próprio, vivendo em situação extrema.
Freddy 25/09/2006 @ 17:48 12
  http://www.marola.ebarracuda.com.br
Mantenho a posição sobre a necessidade de se manter o tom mais "literal". Mas o tradutor preprara nota para postar aqui.
18/09/2006 @ 11:26 11
  http://www.decodeservicos.com.br
Eu já tinha lido o livro no original e recentemente adquiri a edição em português lançada pela Barracuda. Não há o que falar quanto a obra em si, que é fantástica. Agora, essa edição, apresenta falhas graves de tradução. Desde frases que pecam por uma completa falta de senso ao transpor uma expressão da cultura norte-americana à brasileira, até traduções mais literais das palavras, no que se perde muito do significado e, ainda, acreditem se quiserem, em um certo momento o tradutor se confunde no tempo verbal e o narrador aparece em primeira pessoa. Uma pena... São pequenos detalhes que fazem toda a diferença.
31/10/2005 @ 23:34 10
Esse primeiro livro de E Bunke é muito bom!!! Vale a pena ler esse primeiro e depois "nem os mais ferozes".
Rafael Lima 04/04/2005 @ 15:27 9
  www.mondo-exotica.net/nacaradogol
Grande livro. raríssimo caso de marginal com vasta vivência no submundo e entre os livros. Bagagem marginal e literária.
22/03/2005 @ 14:03 8
  http://www.altiro.com.br
Impressiona realmente, eu que trabalho com imagens, consegui visualisar tudo!! Demais cara. 5511 3039-3032
17/03/2005 @ 13:56 7
Acabei de ler "Cão come Cão" ontem. Assustador como é bom. Este autor merece grande divulgação. Estou fazendo minha parte no boca a boca.
Abraço.
22/02/2005 @ 22:52 6
  http://contrera.blogspot.com
Corrijo: não é Animal Farm, mas Animal Factory.
Contrera
Augusto 20/02/2005 @ 16:26 5
Perdão à incorreção: o nome correto do primeiro livro do Lehane é 'Um Drink antes da Guerra'.
19/02/2005 @ 23:10 4
  http://contrera.blogspot.com
Não para qualquer um

Rodrigo Contrera *

Poucos de nós podemos nos dar ao luxo de criticar (ou mesmo resenhar), em seus próprios termos, os vários livros escritos por Edward Bunker (nascido em 1933, em Hollywood) desde a década de 70, dois dos quais (Cão Come Cão e Nem Os Mais Ferozes) já estão entre nós, pelas mãos da Editora Barracuda (www.ebarracuda.com.br).
Por que isso? Uma coisa é avaliar um livro de ficção pelas suas características intrínsecas (enredo, personagens, linguagem etc.); outra é avaliar ficções derivadas de vidas pregressas inexpugnáveis, como do próprio autor, criminoso condenado a passar 30 de seus 40 primeiros anos em presídios de segurança máxima. Como avaliar um personagem criado por Bunker se não temos a menor idéia de como são esses caras na vida real? Como rotularmos de "exagerado" ou implausível certo personagem que existiu de fato ou de incoerente certa trama retirada de fatos reais vivenciados, como criminoso, pelo próprio Bunker? Torna-se difícil criticar obras cuja verossimilhança escapa à nossa mais remota vivência.
Claro, podemos criticar o escritor Bunker, que - ao menos confiando no relato de William Styron, que prefacia ambos os livros - não teve o menor resquício de educação formal. Vamos lá, então. Antes de mais nada: Bunker sabe escrever, o que aprendeu a duras penas lendo o que podia em San Quentin. Mais: Bunker narra muito bem, não se limitando, enquanto escritor, a cenas de ação ou descrição de eventos em linguagem de baixo calão, como qualquer um poderia imaginar. Como argumento, basta um exemplo. Cão Come Cão praticamente começa com Mad Dog McCain, um dos principais personagens, aspirando e depois injetando cocaína na veia. A descrição, realizada com diversos recursos complexos de estilo, como mudanças radicais de referência, introspecções delirantes em meio a tosca brutalidade, termina com o assassinato, por ele mesmo, da própria mulher e filha. É de se duvidar que alguém venha a querer usar cocaína a partir do relato de Bunker. Cenas como essa, contudo, não são exceção: multiplicam-se tanto em Cão Come Cão quanto em Nem Os Mais Ferozes. Sejamos sinceros: certos trechos haveriam de dar inveja a sujeitos do porte de Jim Thompson, um dos maiorais do gênero (até nisto há um quê de inédito em Bunker, pois como rotular "policial" um romance cujo "herói" é um criminoso?) ou mesmo roteiristas de altíssimo nível (como a dupla Charles Brackett e Billy Wilder, em Farrapo Humano, por exemplo). Em tempo: Bunker é também roteirista premiado.
Os enredos de Cão Come Cão e Nem Os Mais Ferozes são bem simples, simplórios até. O primeiro livro (quarto de Bunker) narra os preparativos e fuga após um assalto a mão armada contra... assaltantes. Pois, para não serem pegos, Troy, Diesen e Mad Dog, os "heróis" do livro, preferem roubar traficantes que não podem, claro, chamar a polícia e não têm como achar seus inimigos. A trama de Nem Os Mais Ferozes (o primeiro de Bunker, lançado originalmente em 1973) é ainda mais prosaica. Em liberdade condicional, Max Dembo, ex-condenado, tenta desesperadamente não voltar à vida de crimes. É claro que não consegue.
Certos livros a gente engole de uma vez só e logo em seguida esquecemos. Pois não é o que acontece com os personagens e algumas cenas (cinematográficas) de Cão Come Cão e Nem Os Mais Ferozes. McCain, em toda sua loucura perversa, permanece em nós; Diesel, em sua idolatrada relação com Troy, inspira-nos certa compaixão até o último momento; chegamos até a torcer por Troy, que a todo momento só se preocupa de verdade com ele mesmo. Max Dembo, de Nem Os Mais Ferozes, torna-se - pena dizer - quase um amigo, apesar de sua moralidade discutível e práticas deploráveis. Pois como não nos identificarmos com um sujeito que, desesperado, não aceita ficar mofando três semanas em uma cela só porque seu agente da condicional entrou em férias? Iria mais além: assim como não a atual tradição de filmes de ação não ousa se esquecer de certos filmes de Sam Peckinpah (Meu Ódio Será Sua Herança, Sob O Domínio do Medo, Pat Garrett e Billy The Kid, por exemplo), não haveríamos por que ousá-lo com respeito a moral amoral de Edward Bunker e companhia.
Antes que eu me esqueça: 1) Nem Os Mais Ferozes foi filmado em 1978 com Dustin Hoffman como Max Dembo. O filme chama-se Straight Time, ou Liberdade Condicional. Os aficionados devem querer saber que, ao realizar o filme, Hoffman queria independência no roteiro, algo que o estúdio não cumpriu e que, ao ser acionado na justiça, retaliou com péssima divulgação. 2) Ainda sobre Straight Time, existe um documentário de 25 minutos sobre os bastidores do filme, do qual participaram Bunker e colegas de "profissão" (ex-marginais). 3) Fogo contra Fogo, um dos melhores filmes de Michael Mann, tem um personagem baseado, como forma de homenagem, no Bunker marginal (é o agenciador de crimes interpretado por Jon Voight). 4) Bunker, o próprio, é o Mr. Blue de Cães de Aluguel, sujeito atarracado que embora mal apareça consegue dar o tom à antológica primeira seqüência do filme. 5) Em Cães de Aluguel, Bunker foi contratado à última hora por Tarantino, que o viu nas seqüências de filmagem de Straight Time. 6) Bunker participa em diversos outros filmes, com destaque para Expresso para o Inferno e Tango & Cash. Em Expresso, Bunker, além de ser co-autor do roteiro (criado por Akira Kurosawa, que não conseguiu filmá-lo), incorpora o papel de um condenado (Jonah) que aparece como mentor intelectual do personagem principal interpretado por Jon Voight. Em Tango & Cash, uma comédia, Bunker faz uma ponta como delegado, chefe de Cash (Kurt Russel), que, se não exagero, rouba a cena sempre que aparece. 7) Autor do livro Animal Farm, mais completo relato sobre sua estadia no sistema prisional, Bunker deu origem a filme do mesmo nome dirigido por Steve Buscemi (que por razões óbvias dispensa apresentações).
Sobre o livro: Ainda no terreno desta resenha crítica, o editor precisa se preocupar com as revisões dos livros: os erros são irritantes. E, falando no diabo... Alfred Bylik, proprietário da Editora Barracuda, diz em seu blog que pretende lançar mais dois livros de Bunker em 2005: sua autobiografia (Mr: Blue: Memoirs of a Renegade e Little Boy Blue). Boa sorte a ele. Estou à espera.

* Jornalista. Esta resenha está sendo aprimorada para aparecer como ensaio em revista ou internet.
18/02/2005 @ 20:21 3
Desde os bons tempos dos clássicos (Chandler,
Hammet ou Highsmith) não leio um
policial tão bem elaborado: os personagens são bem delineados e o enredo enxuto. Excelente clima
para um dia chuvoso; e, convenhamos, bastante superior
ao festejado Lehane, de 'Um Drink antes do Jantar'.
16/12/2004 @ 16:46 2
  http://contrera.blogspot.com
Os marginais sempre exerceram atração sobre os seres humanos normais, especialmente os jovens sem rumo, que os tomam como referência, positiva até. Mr. Blue (Bunker em "Cães de Aluguel") trata esses sujeitos como aquilo que são. Criminosos que precisam viver. Difícil imaginar quem leia os livros e pretenda vir a ser criminoso. Mais fácil imaginar criminosos que preferem lê-lo para melhor se suportarem.
Contrera
14/12/2004 @ 09:00 1
Fazia tempo que não experimentava a deliciosa sensação de não querer sair de casa para ler. Nenhum programa é mais eletrizante do que saber o que acontecerá a Troy, Mad Dog e Diesel nas próximas páginas. Personagens muitíssimo bem construídos nos dão as várias visões do submundo do crime. Tudo isso em uma ambientação extremamente realista e envolvente.
"Cão come cão" tem tudo para ser um "best seller". Parabéns Barracuda, por nos apresentar Edward Bunker.
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